Entre reconhecíveis e irreconhecíveis: aspectos políticos, econômicos e éticos da adoção de tecnologias de reconhecimento facial no Brasil
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INSTITUTO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA / UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
Resumo
Tecnologias de reconhecimento facial têm sido utilizadas no Brasil e no mundo com
objetivos diversos. Podem atuar no combate a crimes, na busca de pessoas
foragidas e/ou desaparecidas, para ingresso em estabelecimentos, no pagamento
de contas. Suas diversas utilidades têm causado a sensação de que são cada vez
mais imprescindíveis. Contudo, seus impactos são muitos e ainda seguem sob
observação. O objetivo deste estudo é analisar aspectos políticos, econômicos e
éticos da adoção de ferramentas de reconhecimento facial no Brasil, por meio das
abordagens metodológicas exploratória, indutiva-dedutiva e quali-quantitativa. Foram
utilizados métodos de revisão não sistemática de literatura, análise documental e de
conteúdo, que permitiram a análise de 121 projetos e leis. Desses, foram 44 projetos
que tramitam na Câmara dos deputados e 77 leis e projetos oriundos de
Assembleias Legislativas de estados brasileiros e do Distrito Federal. Foram feitos
85 pedidos de acesso à informação para 73 órgãos, em nível estadual, e analisados
relatórios sobre a adoção de tecnologias de reconhecimento facial no Brasil. O
reconhecimento facial tem ganhado cada vez mais destaque no país, o que pode ser
observado pelo crescimento da legislação e do debate sobre o tema na Câmara dos
deputados e nas assembleias legislativas, além do aumento de projetos de uso
dessa tecnologia em andamento. Entre deputados, o debate ético tem aparecido
como algo de solução simples, a partir da confiança da maioria dos legisladores de
que tecnologias de reconhecimento facial são benéficas. Ainda assim, são diversos
os exemplos que envolvem pessoas erroneamente identificadas em casos de falsos
positivos e falsos negativos, causando prejuízos a suas vidas. Os gastos
econômicos da adoção de tecnologias de reconhecimento facial ainda são de difícil
mensuração, pois os contratos são recentes ou de difícil acompanhamento por meio
dos mecanismos de transparência existentes. Ainda assim, foi possível observar que
diversos estados brasileiros já têm utilizado tecnologias de reconhecimento facial na
educação e na segurança pública e seu uso tem crescido. Não é possível afirmar
que as tecnologias de reconhecimento facial sejam de fato eficientes para a
segurança pública e para a educação. Contudo, há uma preocupação grande com
os danos advindos da sua utilização no Brasil por causa dos erros da tecnologia e
da relação com a comodificação da vida, das dinâmicas do colonialismo de dados e
do colonialismo digital. Para concluir, defende-se que a ética intercultural da
informação é um caminho que favorecerá a imaginação a dar lugar a um novo
mundo em que a tecnologia esteja a serviço de comunidades e dos seres que
coabitam o planeta.