Evangelho, extrema direita e poder: regime de informação e disputas político-religiosas sob o discurso bolsonarista

Resumo

Esta tese propôs como objetivo compreender, a partir das narrativas de evangélicos residentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), de que modo o ideário bolsonarista atravessa suas percepções sobre política, religião, informação e costumes, buscando identificar como os elementos ideológicos da extrema direita são incorporados, negociados ou tensionados em suas visões de mundo. A problemática central insere-se no contexto da ascensão da extrema direita no Brasil, tendo como marco político-eleitoral a vitória de Jair Bolsonaro à Presidência da República, em 2018, em articulação com o avanço internacional de forças autoritárias, nacionalistas e conservadoras. Nesse cenário, parte do segmento evangélico mais conservador constitui importante base de apoio ao projeto de poder bolsonarista, fomentado por lideranças evangélicas conservadoras, com forte presença midiática e representação política. O bolsonarismo mobiliza, no âmbito da guerra cultural, militarismo, anticomunismo, conservadorismo religioso, libertarianismo e negacionismo científico. A hipótese da tese é que a dimensão religiosa constitui o elemento de maior mobilização, adesão e relevância nesse processo, ancorada em um discurso fundamentalista cristão instrumentalizado por Jair Bolsonaro como estratégia de sustentação de seu projeto político, por meio de uma matriz religiosa, moralizante e absolutizante, que reduz as respostas às contradições sociais, políticas e culturais a uma perspectiva única, fortemente amparada em valores morais e religiosos. O corpus empírico é composto por 20 entrevistas semiestruturadas realizadas com fiéis evangélicos residentes na RMRJ, distribuídos entre a Baixada Fluminense, a capital e o Leste Metropolitano, contemplando diferentes denominações, perfis sociodemográficos, trajetórias religiosas e posicionamentos políticos. A metodologia é qualitativa e indutiva, articulando a Análise de Conteúdo e a Análise Crítica do Discurso. A primeira permitiu sistematizar os dados empíricos em categorias, subcategorias e núcleos discursivos; a segunda possibilitou examinar como os sentidos produzidos pelos entrevistados se relacionam com práticas sociais mais amplas, marcadas por disputas de autoridade informacional, regimes de verdade e moralidades político-religiosas. Os resultados indicam que a relação entre evangélicos e bolsonarismo não pode ser compreendida de forma homogênea ou linear. Embora a amostra revele forte presença de conservadorismo moral religioso, especialmente em temas ligados à família, sexualidade, aborto, gênero e autoridade bíblica, também emergem ambivalências, tensões e contradiscursos sobre a instrumentalização política da fé. A Bíblia, a liderança pastoral, as mídias sociais, os grupos de WhatsApp, os familiares e os vínculos comunitários aparecem como instâncias relevantes na formação de percepções políticas e religiosas, compondo um regime de informação atravessado por disputas sobre verdade, autoridade e legitimidade. A pesquisa evidencia que a fé cristã pode operar tanto como recurso de adesão a repertórios conservadores quanto como fundamento para críticas à manipulação religiosa, à associação automática entre igreja e candidato e à captura da religião por projetos de poder. Desse modo, o estudo amplia o debate sobre o papel do campo evangélico na consolidação, negociação e contestação do bolsonarismo, demonstrando que as disputas político-religiosas não se limitam ao voto, mas envolvem regimes de verdade, formas de autoridade e sentidos morais em circulação na sociedade brasileira.

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