Dimensões tecnopolíticas e econômicas da comunicação científica em transformação
Carregando...
Data
Autores
Título da Revista
ISSN da Revista
Título de Volume
Instituição
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia/Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo
Episódios sucessivos de crise, de experimentações e de propostas de revisões de valores e
práticas nos processos de produção, circulação e uso de informação científica têm representado
desafios às estruturas e modelos tradicionais e hegemônicos da comunicação científica, com
destaque aos incentivos em favor de transformações no processo de publicação de periódicos
científicos. Paralelamente, manifestam-se esforços de reconfiguração e de contrarreação por
parte de agentes econômicos hegemônicos, e de desenvolvimento de novos modelos de negócio
de publicação científica, com fins de preservação do protagonismo desses agentes. Frente a essa
problemática, objetivamos, com esta pesquisa, investigar os processos de reação,
reconfiguração e contrarreação no cenário da comunicação científica em transformação,
atentando para os aspectos tecnopolíticos e econômicos emergentes desses processos. Para
tanto, pautamo-nos em análises qualitativas e quantitativas, de documentos relacionados a
iniciativas demonstrativas de mudanças na comunicação científica — seja na forma de
periódicos, plataformas, preprints, entre outras —, assim como em análise de conjuntos de
dados disponíveis sobre publicações em acesso aberto. Conduzimos também abordagem
qualitativa, baseada em entrevistas individuais, para que se pudesse captar um espectro variado
de manifestações por parte dos especialistas e advocates. Como elemento de suporte às análises,
partimos de um marco teórico sobre processos de desenvolvimento, crise e movimentos de
reação no cenário de produção, circulação e acesso de publicações e informações científicas,
considerando os contextos históricos e as condições socioeconômicas de ocorrência desses
processos. Como resultados e considerações gerais desta pesquisa, relatamos a manifestação de
novos dilemas político-econômicos decorrentes de movimentos de reação e reconfiguração no
cenário da comunicação científica. Como um desses dilemas, situa-se o desenvolvimento de
modelos de negócio de publicação do acesso aberto orientados e conduzidos em função do
protagonismo de editoras comerciais. Destacamos também que as editoras, e respectivos grupos
e conglomerados das quais fazem parte, têm atuado num movimento de contrarreação às
propostas de transformação no cenário da comunicação científica, principalmente pela adoção
de estratégias de negócio de integração vertical de plataformas e infraestruturas de pesquisa,
com fins de manutenção do seu protagonismo nesse cenário. Como consequência dessas
estratégias, temos a conformação de processos de captura massiva de dados e informações que
circulam nas plataformas integradas, incorrendo em alienação de trabalho gratuito de cientistas
e demais usuários das plataformas, em potencial manifestação de processos de vigilância e
ameaças à privacidade, além de potencial ‘algoritmização’ de processos de tomada de decisão
em pesquisa. O acesso aberto e a ciência aberta demonstram potencial de renovação nos
processos de produção e publicação de resultados de pesquisa, com ampliação da participação
e do acesso. Por outro lado, a manutenção do vínculo desses processos a sistemas de validação
e certificação ainda fortemente orientados a partir de informações e subsídios sob o domínio e
controle de editoras comerciais e organizações com fins lucrativos, levantam questões sobre a
potencial manifestação de conflitos de interesse quando da condução desses processos.