Antropoceno, regime de informação e produção alimentar no Brasil: estudo de caso de uma rede alimentar alternativa urbana
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Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia/Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo
Esta tese investiga as Redes Alimentares Alternativas (AFNs) urbanas a partir de um
diálogo da literatura com o estudo de caso da Associação de Agricultura de Campinas e
Região (ANC), uma AFN urbana brasileira. A investigação faz questionamentos tanto
empíricos quanto teóricos, para analisar se a ANC se constitui em uma alternativa ao
desenvolvimento, respondendo aos problemas socioambientais que afetam o planeta, dentre
os quais, a degradação ambiental causada pela agricultura convencional e industrial. Este
modelo de agricultura é um crucial fator de agravamento das causas e efeitos do
Antropoceno, período em que as atividades humanas promoveram mudanças no planeta,
deixando sobre ele marcas de intensidade igual às de fenômenos geológicos. O problema
que norteou este estudo buscou analisar em que medida a dinâmica informacional das AFNs
e as atividades que elas desenvolvem contribuem para a consolidação e autonomia da rede
ANC, constituindo-se em resposta ao Antropoceno em nível local. Sendo a mobilização de
produtores e a ampliação do mercado consumidor os desafios maiores para a criação e
manutenção das AFNs, foram investigadas as dinâmicas informacionais da rede ANC.
Assim, dentre os objetivos atendidos pelo trabalho estiveram a identificação e a análise dos
obstáculos e benefícios das Redes Alimentares Alternativas (AFNs) urbanas para o
enfrentamento do Antropoceno. A metodologia teve uma abordagem sistêmica, adotando
como campo teórico a discussão sobre o atual estado de degradação ambiental que o termo
Antropoceno busca delimitar. No campo empírico, pesquisas qualitativas foram conduzidas
com produtores e consumidores da rede, seguidas da análise informacional e da discussão
dos resultados à luz do quadro teórico. Este discute a mudança paradigmática necessária
para lidar com o desafio da degradação ambiental no Antropoceno, em um cenário em que
o intensivo crescimento demográfico mundial e a agricultura industrial se impõem como
risco à manutenção da vida humana ao afetar a segurança alimentar de populações em todo
o mundo. Apesar de ganhar espaço nas agendas políticas internacionais, este desafio cresce
no vácuo de uma efetiva governança ambiental global regida pelo oxímoro subjacente aos
Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Ao nível dos territórios dos países do Sul
Global, nos quais se insere o Brasil, o Antropoceno se perpetua por meio da prevalência de
práticas (neo)extrativistas associadas ao aprofundamento da desigualdade social, que
afetam primeiro e mais profundamente aos mais pobres, mas não exclusivamente a eles. O
trabalho conclui que a capacidade de responder ao Antropoceno apresentada pela rede ANC
enquanto espaço de articulação de uma consciência ambiental ao nível dos territórios
depende de sua compreensão sobre as limitações ligadas às condicionantes do regime de
informação em que está inserida, o qual é norteado pela ideia do desenvolvimento
sustentável. Isto habilitará a ANC a atuar como efetiva resposta ao Antropoceno ao
disseminar valores e práticas que efetivamente mobilizem a sociedade civil em direção à
profunda revisão paradigmática em que o ser humano se entenda como parte do Sistema
Terra. Esta modificação poderia inspirar políticas públicas locais a partir do modelo da
ANC que, ao ser replicado, contribuiria para a edificação de um regime ambiental global
efetivo.