Máquinas aprendizes; humanos atarefados. Inteligência artificial e trabalho alienado no “capital-informação”

Resumo

Este estudo sobre máquinas aprendizes e humanos atarefados, dedicamo-nos ao tema do desenvolvimento das forças produtivas na nova indústria da inteligência artificial (IA), problematizando a profecia autorrealizável e a retórica emocional segundo as quais suas inovações mais recentes eliminariam todo e/ou qualquer trabalho vivo. Como revela a análise do processo de trabalho nesta indústria, baseada em algoritmos estatísticos de uso extensivo de dados tratados e em plataformas de micro-tarefas (PMTs), o capital-informação tende a um duplo movimento (contraditório e combinado) de subsunção real do trabalho digital ou informacional tanto em sua forma aleatória, i.e., predominantemente criativa, quanto em sua forma redundante, i.e. predominantemente repetitiva. Isto porque a produção de componentes lógicos (software) nesta indústria depende tanto do trabalho vivo criativo e bem remunerado de quem concebe, nos centros geográficos do capitalismo, os extensos conjuntos de dados tratados e os algoritmos estatísticos, quanto do trabalho vivo repetitivo e mal remunerado de quem, das periferias geográficas deste sistema econômico, faz a coleta, a classificação, o armazenamento, a recuperação e a disseminação destes dados. Ao mobilizarmos categorias que procuram chamar a atenção para a centralidade das tecnologias cibernéticas da informação e da comunicação (TCICs) no capitalismo contemporâneo, tais como capital-informação, trabalho aleatório e trabalho redundante entre outras, traçamos, com as lentes da teoria da alienação em Marx, os contornos de nosso objeto de estudo – qual seja o trabalho mediado por PMTs. Dito isto, nossa primeira hipótese é de que se, por um lado, o capital-informação tende, com a automação, a reconhecer valor nas formas criativas e bem remuneradas do trabalho (digital) vivo, tais como a primeira citada, ou nas não remuneradas como a própria produção de dados brutos por meio de plataformas sócio-digitais (PSDs), tal tendência se combina, ao mesmo tempo, a um outro movimento contrário ao primeiro: o de também reconhecer valor no trabalho (digital) vivo repetitivo e mal remunerado feito por meio das PMTs. A segunda hipótese (que decorre da primeira) é de que, a IA, hoje, não automatiza totalmente o trabalho vivo (humano) de tratamento organizado de dados, como anunciam os promotores da dita Quarta Revolução Industrial, mas o ultra tayloriza, por meio destas mesmas PMTs sem, porém, a proteção social do fordismo, desqualificando-o e invisibilizando-o socialmente ao redor do mundo. Por fim, nossa terceira e última hipótese é de que, enquanto área do conhecimento técnico e científico aplicada à indústria, a IA, ao tentar realizar seu ousado projeto de automação do juízo, ao invés de libertar a humanidade da labuta, por meio de suas inovações, tem encerrado a humanidade cada vez mais no looping da exploração do trabalho digital e da dominação de classes, já que segue reforçando também os nós que atam o valor e o trabalho (digital) à velha alienação. Estudado recentemente no Brasil, o trabalho mediado por PMTs configura-se, ao nosso ver, como um interessante objeto de estudo na ciência da informação (CI) na medida em que esta se dedica à compreensão de fenômenos sociais relacionados ao tratamento organizado de dados transformados em informação como conhecimento documentado. O interesse por sua morfologia justifica-se aqui em razão da necessidade de estudar alguns aspectos desta nova forma de trabalho (digital) ainda pouco contemplados na literatura especializada. Nosso objetivo, com isto, é descrever as faces ocultas da alienação na nova indústria da IA, valendo-nos também das contribuições da CI, além de provocar uma reflexão mais geral sobre a ainda necessária superação do capitalismo enquanto relação social de exploração e dominação de classes. Para tal, adotamos técnicas de artesanato intelectual ou bricolagem como princípios metodológicos de baixo custo que nos permitiram combinar diferentes disciplinas e fontes de pesquisa. Os dados primários foram coletados por meio de pesquisas qualitativas: observação participante na PMT Hive Micro (antiga Hive Work) e entrevistas em profundidade tanto com uma youtuber e ex-trabalhadora de múltiplas PMTs quanto com o diretor do Centro de Inteligência Artificial (C4AI) da Universidade de São Paulo (USP). Já os dados secundários foram coletados a partir de múltiplas fontes de pesquisa quantitativa e qualitativa: revisão da literatura internacional e nacional; surveys; estudos comparativos; relatórios técnicos e institucionais; patentes; condições de serviços das PMTs; manuais; tutoriais; websites; blogs; vídeos em canais do YouTube; observação em fóruns remotos de trabalhadoras e trabalhadores de PMTs; meios de comunicação em geral, etc. Por fim, dada a validade das hipóteses aqui formuladas, podemos dizer que este estudo teórico-descritivo teve como resultado a revisão crítica da própria tese da automação no capital-informação segundo a qual este tenderia hoje a reconhecer como única fonte de valor apenas o trabalho aleatório ou criativo.

Descrição

Citação

OLIVEIRA, Nahema Nascimento Falleiros Barra de. Máquinas aprendizes; humanos atarefados. Inteligência artificial e trabalho alienado no “capital-informação”. Orientador: Prof. Dr. Marcos Dantas Loureiro. 2024. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro – Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Rio de Janeiro, 2024.

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