Já para fora de sala: análise crítica das percepções de adolescentes e educadores sobre a proibição do uso de celular em escolas do Rio de Janeiro
Resumo
A emergência sanitária da Covid-19 ampliou o uso das tecnologias e informação e comunicação (TICs) por crianças e adolescentes em todas as esferas de suas vidas. Dois anos depois do fim da pandemia, responsáveis, educadores e governantes passaram a discutir sobre como protegê-los dos riscos do uso desmedido de dispositivos digitais, sendo o principal deles os smartphones, por sua mobilidade e ubiquidade. Prejuízo ao aprendizado, à saúde mental e física e à proteção de dados são alguns dos aspectos negativos do uso exagerado das TICs. Para enfrentar estes desafios, escolas têm implementado políticas de proibição do celular como forma de minimizar os impactos negativos. Nesse sentido, esta tese de doutorado tem como objetivo geral compreender os efeitos da proibição do uso do smartphone no tempo de escola de estudantes do Ensino Fundamental 2, ao final do primeiro ano de implementação da regra em unidades de ensino do Rio de Janeiro. Adicionalmente, a pesquisa questiona: o banimento pode favorecer a reflexão crítica dos estudantes sobre o tempo de tela? Trata-se de uma pesquisa social de natureza aplicada, qualitativa e crítica, com ida a campo. Foram realizadas 37 entrevistas individuais semiestruturadas, aplicadas a estudantes, professores e coordenadores de três escolas (uma pública e duas privadas) submetidas à análise temática. O marco teórico se funda na Teoria Crítica e na Teoria Crítica da Informação para explorar a aceleração social – manifesta na velocidade dos dispositivos, nas mudanças sociais intrageracionais e na intensificação do ritmo de vida – que reverbera em sintomas como imediatismo, inevitabilidade, ansiedade e burn out. Os resultados sugerem que a proibição favoreceu o comportamento dos estudantes em termos de foco e interação social; que eles reconhecem problemas do excesso do uso do celular; e buscam autorregular seu tempo de tela. Como conclusão proponho resistir à pressão neoliberal pela aceleração social para refletir com as crianças e adolescentes sobre estratégias efetivas de conscientização crítica para o uso das tecnologias digitais de forma que os beneficie, a partir de um processo que integre a tríade família, escola e governos. Acompanhar os resultados atingidos nas escolas que proibiram o uso de smartphones pode trazer indícios sobre os efeitos da redução do tempo de tela por crianças na escola e em outros ambientes. Esta pesquisa pretende atender a anseio não somente de parte da sociedade (crianças, adolescentes, responsáveis, educadores, pediatras, hebiatras, entre outros), mas também contribuir fornecendo evidências científicas que embasem políticas públicas e mesmo outras pesquisas.